Reflexão para a Sexta-feira que antecede o domingo de Páscoa

A sexta-feira que antecede o domingo de Páscoa é marcada pelo silêncio e reflexão que esta data nos recomenda. JesusReferimo-nos a um silêncio interior, haja vista que na sociedade moderna, onde tudo acontece em tempo real e estamos conectados uns aos outros, interagindo o tempo todo, sobra pouco tempo para silenciar.

Mas o feriado prolongado acaba por no proporcionar algum tempo para refletir. Então, nos lembramos do velho e bom Chico Xavier e seu livro “Luz Acima”, de autoria do irmão X, e oferecemos este conto para os nossos leitores. Bem apropriado a esta data:

RECORDANDO O FILÓSOFO

Conta-se que Epicteto, o escravo filósofo, visitado por Lisandro, liberto de Epafrodita, que lhe apresentava despedidas, em razão de mudança precipitada para Roma, entrou em fundo silêncio, diante do amigo íntimo.

– Pois não te regozijas? – exclamou o amigo, exonerado do cativeiro – não sentirás comigo o júbilo da transferência feliz?

O interpelado fixou-o, de frente, e indagou:

– Que pretendes?

– Uma viagem maravilhosa, o ambiente diverso, a modificação da vida, o esplendor da cidade imperial, a honra de ouvir os tribunos célebres, a contemplação dos espetáculos faustosos e, quem sabe, talvez o destaque entre os patrícios dominadores.

O filósofo escutava o companheiro sem o mais leve movimento. Terminada a breve exposição, objetou imperturbável:

– Empreendes longa e perigosa jornada, em busca de importância pessoal que te satisfaça a ambição. No entanto, que viagem já fizestes para modificar opiniões e melhorar sentimento?

O amigo surpreendido não conseguiu responder.

– Procuras ambiente diverso, – prosseguiu o sábio sem alterar-se – todavia, em que idade tentastes a própria renovação? Odeias sempre que te ferem, reages quando te insultam, justificas-te apressadamente quando te acusam de alguma falta… Que novidade poderás encontrar no caminho da vida?

Desejas o esplendor da cidade dos Césares, mas não acendestes ainda a mais humilde candeia dentro de ti. Queres o júbilo de escutar os oradores famosos; porém, jamais consultastes alguém sobre os recursos que te façam melhor. Buscas espetáculos extravagantes para os olhos de carne, esquecido de que há prisioneiros contemplando festas loucas das grades do cárcere.

Sonhas figurar entre os que dominam, mas não tens ainda o comando da própria existência.

O amigo corou ante as palavras serenas, mas exclamou irritadiço:

– No entanto, eu agora sou livre…

Epicteto sorriu e terminou:

– Tens a liberdade, mas não fugirás de ti mesmo…

O episódio recorda-nos a própria vida.

Na juventude, cheia de sonhos à velhice coroada de desilusões, convida-nos a verdade ao campo consciencial para os serviços de iluminação íntima. A maneira do amigo de Epicteto, contudo, repousamos à sombra das árvores floridas de mentiras deliciosas, na floresta inextricável das emoções humanas.

Procuramos melodias que nos embalem os ouvidos e decorações de luxo que nos magnetizem o olhar, colhemos botões de flores e inutilizamos frutos verdes, ciosos de nossa independência, permanecerá sempre os mesmos joguetes da reação inferior, quando a luta nos visita de leve.

Desejamos e realizamos no plano exterior, penetrando em seguida, os caminhos do tédio mortal. Esgotamos a taça de vinho embriagador para encontrarmos, no fundo, o vinagre do desalento.

Terminadas as decepções da natureza física conservamos o derradeiro e mais terrível engano. Esperamos na morte a revelação de um paraíso maravilhoso de ambrosias e cânticos angélicos. Sonhamos atravessar sublimes pórticos de misteriosos palácios repletos de tesouros augustos e láureos imortais.

É a viagem difícil do liberto a uma Roma diferente, aureolada de púrpuras e riquezas.

Entretanto, à frente do castelo celestial, resplendente de luzes, estacamos defrontados por nós mesmos, em amargosas sombras do coração. Intentamos avançar, ébrios de esperança, gritando nosso júbilo diante da “terra nova”. Todavia, pesadas algemas agrilhoam-nos o espírito ao que somos, fazendo-nos reconhecer que a semeadura da indiferença, produz abundante colheita de remorsos e lágrimas.

Reclamamos, choramos, suplicamos…

A consciência retilínea, porém, responde calma:

– Que realizastes senão repetir, até hoje, o que fazias há séculos? Odeias, quando te perseguem; reages, quando te apedrejam; defendes-te apressado quando te acusam… Não compreendestes, não ajudastes, não amastes.

Ansiosos pela fuga, contemplamos o plano infinito que se desdobra, convidando-nos à maravilhosa aventura no limiar da Eternidade e, tentando último esforço, para desvencilharmos das próprias obras, exclamamos, também: No entanto, eu agora sou livre…

E a consciência, divina e irrepreensível, replica-nos com a serenidade imperturbável do sábio cativo:

– Tens a liberdade, mas não fugirás de ti mesmo.

Marcelo Silveira

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